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sábado, 22 de março de 2014

Lenda de Marvão

[Q]uando Medóbriga fora conquistada e distruída por Cássio Longino, que muita parte da gente fugira com molheres e mininos pera aquelas rocas e penedias e, como a subida é tão agra, (e ainda naquele tempo seria pior, pois não era tam frequentada) iam caindo, uns por ũa parte, outros por outra, fugindo da morte e dos perigos que a guerra, com suas pressiguições traz consigo. E assi começaram a bradar uns pera os outros dizendo: “Malvão, Malvão”. E daqui, mudado o l em r, se chamou Marvão.

Versão de Galegos (Marvão) contada por “uns velhos” em finais do século XVI e recolhida por Diogo Pereira Sotto Maior (1984) – Tratado da Cidade de Portalegre, (introdução, leitura e notas de Leonel Cardoso Martins), Lisboa, INCM / Câmara Municipal de Portalegre: 40.

sábado, 15 de março de 2014

Lenda da Maia

[D]epois de em vão procurar um recanto onde pudesse acabar os restos da tormentosa vida que levara, Lísias, filho ou capitão de Baco – alguns querem também que fosse Lísio ou Líseo, filho de Sumule – já de avançada idade, ali foi ter 1300 anos a. C. e, achando-o do seu agrado, a este local se acolheu e com sua gente o povoou, edificando-lhe um forte e templo, consagrado a Dionísio ou Baco, seu deus, e dando à serra o nome de uma sua filha chamada Maia. Ali vivendo em paz e liberdade, apascentando os gados e cultivando os campos, de cujas sementes e frutos se alimentava […]. Estava o referido templo no local onde actualmente se ergue a ermida de S. Cristovão, a cujo sopé corre um arroio, que pelas gentes é conhecido pelo ribeiro de Baco. 

Ora reza a tradição que nas margens deste pequeno ribeiro se encontrava a malhada da pastora Maia – filha de Lísias – que pela sua bondade e formosura era adorada por todos quantos a rodeavam. Levava uma vida alegre e pacífica, guardando o rebanho de brancas ovelhas e encontrando-se diariamente em Tobias, que idilicamente e junto a ela se quedava horas sem fim, tocando na sua flauta pastoril. 

E, assim, feliz e descuidadamente decorria o viver dos dois jovens, até que Dolme, um miserando que por ali vagabundeava, embalado pelos toques maviosos da flauta de Tobias e entusiasmado pelos dotes físicos da linda Maia, numa tarde primaveril interrompeu os dois pastores, amedrontando-os com a sua aparição. Foi Tobias esconder-se atrás de um rochedo, enquanto que, levantando-se como que envergonhada, Maia fixa no chão os seus formosos olhos. Mas levada a isso pela doçura do seu coração e, possivelmente, para assim quebrar os instintos maus que adivinhava no intruso, desce para a borda do ribeiro, enche a sua cabacinha e bondosamente lhe oferece de beber a cristalina água que nela recolhera. Finge Dolme aceitar a gentil oferta mas, ao recebê-la, propositadamente deixa cair a cabaça e em seus musculosos braços tenta enlaçar a jovem que, estupefacta com tal gesto, aflitivamente chama por Tobias. Acorre ele e com Dolme trava sanguinolenta luta, que só termina quando este crava no peito do pobre rapaz o machado de pedra de que vinha munido, arremessando-o já moribundo de encontro aos rochedos. Horrorizada pretende Maia fugir mas não o consegue, pois Dolme a agarra e só a larga depois de ser cadáver. 

Desceu a noite nas abas daquela serra e Maia não voltara à malhada, pelo que, tardando-lhe o regresso, o velho pai a procura por toda a parte. Sobe aos outeiros vizinhos e chama repetidas vezes, mas o seu chamamento fica sem resposta. Assustadamente corre à malhada e, acendendo um toco de pinho, vai em procura da desaparecida. Passados instante o cão uiva lugubremente junto do cadáver da formosa Maia e o pobre pai, correndo para o pé do animal e deparando com a filha descomposta e morta, mede a grandeza da tragédia havida e instantaneamente perde a razão.

Durante sessenta luas por ali arrasta a sua triste vista, acocorado junto à malhada, onde julga ver aparecer a filha guardando as ovelhas, agora sem pastora. E, durante esse espaço de tempo, não pronuncia senão o nome de Maia, ele a quem os viandantes passaram a tratar pelo louco de Baco. Ao cabo de tão tormentoso sofrimento, ao velho ancião se afigura certo dia o aparecimento da filha que, sã e escorreita, lhe estendia os braços e, então, num fugidio lampejo de alegria, exclama:

“Maia, minha filha, morro feliz.”

Versão literária, de proveniência desconhecida, publicada na Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, volume II: 551.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Lenda das Santas da Aramenha

Teve esta cidade rei em tempos que os Romanos senhoreavam a Espanha. Um se chamou Catélio e sua mulher se chamava Cálgia, da qual nasceram nove filhas, todas de um ventre; que, enfadada a mãe com tantas filhas, com era gintia, as mandou deitar no rio por uma criada sua que, compadecida da piedade natural, que faltara na mãe que as havia parido, as deu a criar em um bairrio onde vivia gente cristã, e foram baptizadas e instruídas em nossa santa fé católica. Foram depois santas e mártires; os nomes destas santas traz o Martirológio Romano, e são os siguintes: Genebra, Liberata, Vitória, Eumélia, Germana, Márcia, Basília, Quitéria, Gema; as quais todas foram martirizadas em diversas partes.

Versão de proveniência desconhecida, recolhida em finais do século XVI ou princípios do século XVII por Diogo Pereira Sotto Maior (1984) – Tratado da Cidade de Portalegre, (introdução, leitura e notas de Leonel Cardoso Martins), Lisboa, INCM / Câmara Municipal de Portalegre: 37.

Portalegre - Praça da República


quarta-feira, 5 de março de 2014

Lenda da imagem do Mártir Santo

Diziam as pessoas antigas que há muitos séculos um cabreiro achou entre umas rochas (no local onde hoje são as Carreiras) uma imagem do Mártir Santo em pedra. Como morava lá para o pé do Veloso, onde era antigamente o povo, resolveu colocar aí o santo. Só que, no dia seguinte, ele estava de novo entre as pedras da serra. O cabreiro tentou levá-lo de novo, mas ele voltava sempre. Então as pessoas fizeram uma ermida a São Sebastião, no local onde a sua imagem tinha aparecido.

Anos passados, começaram a construir casas neste sítio, e assim nasceu também a aldeia.

Versão de Carreiras (Portalegre), contada em 1992 por Ana Fernandes Martins (n. 1913), recolhida e publicada por Ruy Ventura (1996) – “Algumas Lendas da Serra de São Mamede”, separata de Ibn Maruán – Revista Cultural do Concelho de Marvão, nº 6, Dezembro: 38.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Imagens do Alentejo


VERNEY, Luiz António

(n. Lisboa em 1713; m. Roma em 1792)

Filósofo, pedagogista, crítico e delineador de reformas português. Formou-se em Artes e, posteriormente, em Teologia na Universidade de Évora. Foi nomeado pelo Papa arcediago de sexta cadeira na catedral de Évora. O seu conhecimento em línguas clássicas e modernas, levou-o a ter contacto directo com as mais diversas obras escritas.

A sua mais célebre obra é o Verdadeiro Método de Estudar. Esta obra criticava todo o método de ensino utilizado na altura e também a mentalidade portuguesa de então. Esta obra foi duramente criticada na altura, à excepção de D. João V, que percebeu que este estudo implicava uma verdadeira reforma no ensino português. Por isso, encarregou Luís Verney de elaborar os novos Estatutos da Universidade de Coimbra.

A sua constante vontade em querer instruir os portugueses, em várias matérias filosóficas, científicas, históricas e literárias, levaram-no a assumir uma postura mais política, mas embateu com as ideias do marquês de Pombal, que rapidamente o fez desacreditar e vetou-o ao esquecimento.

Refugiou-se em Roma, onde para publicar os seus livros reformistas, acabou por despender a sua fortuna. Ficou conhecido por ser um verdadeiro “iluminista” e um dos primeiros precursores da medicina moderna em Portugal.



In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa; Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., [195-]. Vol. XXXIV, pp. 712-716.

domingo, 2 de março de 2014

Lenda da Serra de Matamores

Dizem que na Serra do Mata Amores, Freguesia dos Fortios – Portalegre, há uma princesa encantada. Aparece a vender passas na manhã de S. João. Quem entrar na sua casa de pedra fica encantado.

Versão de Fortios (Portalegre) recolhida (em 1984) e publicada por Maria Tavares Transmontano (1997) – Subsídios para uma Monografia de Portalegre, Portalegre, Câmara Municipal de Portalegre: 132.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A chegada milagrosa da imagem de São Pedro a Alegrete

Versão recolhida por José António Teixeira Rebelo, pároco de Alegrete, em 1758 (Rebello, 1758 in Ventura, 1995: 100).

[…] A imagem de são Pedro dizem ser Angelical.


Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 303).

A imagem de S. Pedro foi parar ao Algarve a quando da sua feitura, levando uma legenda que indicava: Alegrete. Duvidosos ou ignorando mesmo a localização de tal terra, resolveram os moradores do lugar onde chegou a imagem colocá-la em cima de um carro puxado por dois bravos e possantes bois. Sem que ninguém os guiasse, os bois vieram ter ao lugar onde a capela foi edificada e ali pararam. […] Logo que a imagem foi tirada do carro, assim os bois morreram.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Gastronomia Tradicional Alentejana - Coelho Panado

Ingredientes
1 coelho (bravo, de preferência)
2 colheres de sopa de banha
1 cebola
2 dentes de alho
1 ramo de salsa
1 folha de louro
1 colher de chá de colorau doce
2 colheres de sopa de vinagre
2 ou 3 ovos
pão ralado
óleo para fritar
sal
coelho-panado

Preparação
Corta-se o coelho em bocados e leva-se a refogar com a banha, a cebola, os dentes de alho, o ramo de salsa e o louro.
Tempera-se com o sal, o colorau e o vinagre e vão-se adicionando pinguinhos de água até o coelho estar macio, bem apurado e sem molho. Deixa-se arrefecer.
Batem-se os ovos com um pouco de sal. Passam-se os bocados de coelho pelos ovos, depois pelo pão ralado e fritam-se em óleo bem quente.

Receita retirada de Receitas e Menus

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Personalidades Alentejanas - SIMÕES, Augusto Filipe

(n. Coimbra a 18 Junho 1835; m. Coimbra 1884)

Filho de Manuel Simões Cardoso e de D. Constança Jesuína de Paula Cardoso. Bacharel formado nas Faculdades de Filosofia (em 1855) e Medicina (em 1860) pela Universidade de Coimbra; Médico do partido municipal do concelho de Goes nos anos de 1860 a 1862, e provido depois na cadeira de Introdução á Historia Natural no Liceu de Évora, da qual tomou posse em 1863, sendo conjuntamente nomeado Bibliotecário da Biblioteca Pública da mesma cidade.

A sua passagem por Évora foi marcante, já que foi o responsável pela organização do Museu de Cenáculo, rico repositório espigráfico-arqueológico, a restauração do Templo de Diana, a reforma da Santa Casa da Misericórdia, a criação e dotação de um posto meteorológico e a beneficiação da biblioteca.

Mais tarde torna-se lente catedrático na Universidade de Coimbra, mas a sua paixão pela arqueologia leva-o a criar um museu no Instituto de Coimbra, e na biblioteca da Universidade leva a cabo uma catalogação profunda e meticulosa. Foi também eleito deputado nas cortes, colaborou em várias publicações e escreveu vários livros, na sua maioria sobre a medicina ou arqueologia.

De entre as suas obras destacam-se as seguintes: Cartas da beira mar (Coimbra, 1867); Relatorio ácerca da Bibliotheca publica d'Evora, dirigido ao Ministerio do Reino, publicado na Folha do Sul.


In Dicionário Bibliográfico Português. Estudos de Innocencio Francisco da Silva applicaveis a Portugal e ao Brasil. Continuados e ampliados por P. V. Brito Aranha. Revistos por Gomes de Brito e Álvaro Neves [CD-ROM]. Lisboa, Imprensa Nacional, 1858-1923. Vol. VIII, p. 340.

In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa; Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., [195-]. Vol XXIX. pp. 52-53.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Lenda da imagem da Senhora da Estrela - Marvão

1
Versão literária, de proveniência desconhecida, publicada por Possidónio Mateus Laranjo Coelho (1988) – Terras de Odiana, (2ª edição revista e anotada por Diamantino Sanches Trindade), Lisboa, Câmaras Municipais de Castelo de Vide e Marvão: 328 – 329.

[C]onta-se que em certa noite uma estrela de extraordinário brilho e grandeza atraíra os olhares de um pastor que guardava o gado nas cercanias. Deslumbrado por tão estranha aparição afoutou-se o pastor a subir até ao alto do monte onde depois se edificou o convento, sempre guiado pela luz intensa dessa estrela, descobrindo então a imagem em um recanto das penedias que ali se acumulam.
Esta imagem esteve exposta à veneração e culto dos fiéis durante muitos anos no seu primitivo esconderijo, em um rústica e improvisada capela formada pelas próprias brenhas […].


2
Versão de Escusa (Marvão), recitada por Maria Tomásia Baptista, de 70 anos, em 1967 e recolhida por Cândida da Saudade Costa Baptista. Publicada por Maria Aliete Galhoz (1988) – Romanceiro Popular Português, volume II, Lisboa, INIC: 717.

 Nesta lapa de pedra dura,
‘Stavas bela formosura
Há tantos anos metida.
Dai-me graça singular
P’ra qu’ eu possa contar
Os milagres qu’ obravas nela.
Virgem Senhora da ‘Strela,
No tempo da mouraria
Qu’ assentiava c’ uma bela devoção.
‘Ma noit’ um pastor,
C’o seu gado recolhendo,
Baixou uma ‘strela e disse:
“Vem cá, ditoso varão,
Vem à vila de Marvão,
Cá me vem fazer ‘ma casa d’ oração.
Lá canções de finados,
Braços e olhos pintados,
Pessoas que saem tristes e desconsolados
Que esta casa vêm
Todos há-de ir remediados.”


3
Versão de Marvão, recolhida e publicada por Possidónio Mateus Laranjo Coelho (1988) – Terras de Odiana, (2ª edição revista e anotada por Diamantino Sanches Trindade), Lisboa, Câmaras Municipais de Castelo de Vide e Marvão: 328 – 329.

 Oh Virgem, oh Estrela pura,
De tão bela formosura.
Em lapa de pedra dura
Uma estrela se parou,
Clara luz s’ alumiou,
A Senhora apareceu.
Aonde vaes tu, oh Pastor?!
Aonde vaes tu, oh Verão?!
Vae à vila de Marvão
E pede com devoção
Que me venham neste sítio
Fazer casa d’ oração.
Quem estes versos disser,
Um ano inteiramente,
Saberá bem certamente
Qu’ à hora que há-de morrer
A Senhora há-de aparecer.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Gastronomia Tradicional Alentejana - Migas de Batata

Ingredientes
Para 4 pessoas
1 kg de batatas
250 g de toucinho entremeado
300 g de chouriço de carne
1 dente de alho
sal
migas-batata

Preparação
Num tacho de barro fritam-se, em lume brando, o toucinho ás fatias e o chouriço ás rodelas de modo a derreter o máximo de gordura. Retiram-se e, na mesma gordura, frita-se um dente de alho. Adiciona-se um pouco de água.
Entretanto, têm-se já as batatas cozidas e passadas por um passador.
Junta-se o puré ao pingo que está no tacho e mexe-se com a colher de pau dando-lhe a forma de uma bola. Sacodem-se as migas, deitam-se na travessa e servem-se com o toucinho e o chouriço fritos.
Variante: Se se juntar calda de tomate, estas migas ficam melhores e mais bonitas. O tomate junta-se ao pingo (Évora)

Receita retirada de Receitas e Menus

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Personalidades Alentejanas - SARDINHA, António Maria de Sousa

(n. Monforte a 9 Setembro 1887; m. Elvas a 10 Janeiro 1925)

Poeta, historiador e político, destacou-se como ensaísta, polemista e doutrinador, tornando-se um verdadeiro condutor da intelectualidade portuguesa do seu tempo. Foi pela mão de Eugénio de Castro que Sardinha publicou os seus primeiros poemas, quando tinha apenas 15 anos.

Em 1911, formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Desde cedo começou a publicar livros, entre romances e poesias.

Convertido ao Catolicismo e à Monarquia, juntou-se a Hipólito Raposo, Alberto de Monsaraz, Luís de Almeida Braga e Pequito Rebelo, para fundar a revista Nação Portuguesa, publicação de filosofia política a partir da qual foi lançado o movimento político-cultural Integralismo Lusitano, causando assim grande impacto na sociedade da altura.

A passagem das Letras à Política consumou-se em 1915, ao pronunciar na Liga Naval de Lisboa uma conferência onde alertava para o perigo de uma absorção espanhola. Durante o breve consulado de Sidónio Pais, António Sardinha foi eleito deputado na lista da minoria monárquica. Em 1919, exilou-se em Espanha após a sua participação na fracassada da tentativa restauracionista de Monsanto e da "Monarquia do Norte".

Ao regressar a Portugal, 27 meses depois, tornou-se director do diário A Monarquia onde veio a desenvolver um intenso combate em defesa da filosofia e sociologia política e, rejeitando a tese da decadência de Spengler, em defesa do catolicismo hispânico como a base da sobrevivência da civilização do Ocidente.

Veio a morrer em Elvas com apenas 37 anos. Com esta morte prematura, a maior parte da sua obra foi publicada postumamente, pelo que ainda deixou um esboço de uma História de Portugal, com uma visão nova e profunda da evolução da nacionalidade portuguesa.

De entre as suas obras poéticas, destacam-se: Tronco Reverdecido (1910), Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1921), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931), Pequena Casa Lusitana (1937). Dos Estudos e Ensaios referem-se: O Valor da Raça (1915), Ao Princípio Era o Verbo (1924), A Aliança Peninsular (1924), A Teoria das Cortes Gerais (1924), Ao Ritmo da Ampulheta (1925), entre outros.


In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa; Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., [195-]. Vol. XXVII, p. 726.

Angelfire - Unica Semper Avis Portugal. António Sardinha. [Online] URL: http://www.angelfire.com/pq/unica/il_antonio_sardinha.htm. Acedido a 12 de Novembro de 2007.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Lenda da fundação de Carreiras

A aldeia das Carreiras foi feita pelos moradores da cidade da Aramenha. Há muitos, muitos anos, quanto aquele povo foi arrasado pelos mouros, as pessoas tiveram que abandonar as suas casas: umas fugiram para Marvão e fundaram lá a vila; outras vieram para este lado da serra e aqui fundaram a nossa terra. Diziam os antigos que tiveram que vir às carreiras (a fugir), e por isso deram à aldeia o nome que hoje tem.

Versão de Carreiras (Portalegre) contada por Ana Fernandes Martins (n. 1913) em 1992. Recolhida e publicada por Ruy Ventura (1996) – “Algumas Lendas da Serra de São Mamede”, separata de Ibn Maruán – Revista Cultural do Concelho de Marvão, nº 6, Dezembro: 25.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Gastronomia Tradicional Alentejana - Sopa de Poejos com Ovos

Ingredientes:
Para 4 pessoas
100 g de toucinho entremeado salgado
2 colheres de sopa de banha
1 molho grande de poejos
1 cebola
1 dente de alho
1 folha de louro
1 cravinho
4 ovos
sal
pimenta
400 g de pão de 2.ª (de véspera)

Preparação
Corta-se o toucinho às tirinhas e frita-se sobre lume brando com a banha (ou a gordura de fritar entrecosto ou outra carne de porco).
Pica-se a cebola e o alho finamente e refoga-se na gordura.
Juntam-se os poejos (previamente limpos de raízes e folhas secas), cortando as hastes e as folhas em pequenos troços, o louro e o cravinho.
Deixa-se estalar durante cerca de 2 minutos.
rega-se com 1,5 litros de água, tempera-se com sal e pimenta e deixa-se ferver tapado durante 30 minutos.
Antes de servir, escalfam-se 4 ovos (1 por pessoa) no caldo da sopa.
Retiram-se os ovos e colocam-se sobre pão já cortado às fatias e na terrina em que a sopa será servida.
Rega-se com o caldo, abafa-se e serve-se.
*Como no Alentejo é hábito fritar-se o entrecosto ou outra carne de porco temperada com massa de pimentão, a gordura resultante desta fritura é a que se utiliza geralmente para fritar o toucinho para a sopa de poejos.
A esta gordura dá-se o nome de «banha corada»

Receita retirada de Receitas e Menus

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Personalidades Alentejanas - SÁ, Mário Vieira de

(n. Lisboa em 1888)

Oriundo de uma família distinta, Mário Vieira e Sá formou-se em Agronomia pelo Instituto de Agronomia e Veterinária de Lisboa. Habilitou-se também com a especialidade de Agricultura Colonial, a fim de poder exercer a profissão no Ultramar.

Entre os mais diversos e numerosos cargos que desempenhou, contam-se os seguintes: consultor técnico da Associação Central da Agricultura Portuguesa; director da Sociedade de Ciências Agrónomas de Portugal; director da Associação dos Regentes Agrícolas; director da Fiscalização dos Produtos Agrícolas; director dos abastecimentos do Distrito de Vila Real; director da Secção Agronómica da Empresa Internacional de Comércio e Indústria, Lda; director da Secção Agronómica da Antiga Casa Luís Bartosa, etc.

Chegou também a ocupar vários cargos de director em Moçambique, mas tornou-se mais conhecido pelo seu estudo e ordenamento da Mata Nacional do Alfeite, e pelo estudo da zona de Abrantes de uma praga que assolava os sobreiros, trabalhos encomendados pelo ministro do Fomento da Altura, o Dr. Brito Camacho.

Além de vários artigos da sua especialidade, inseridos em revistas científicas, publicou: As Vacas Leiteiras; O Alentejo-Sua Descrição Geral, Principais Produções e Projecto de Irrigação; Sal das Colónias Portuguesas; Dicionário Ilustrado sobre Sal e Marinhas de Sal e Exploração Racional de Vacas Leiteiras.

Foi também o fundador do jornal A Voz do Campo, que abordava assuntos agrícolas, e foi colaborador de outras tantas publicações.


In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa; Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., [195-]. Vol. XXXV, pp. 270-271.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Lenda da Herdade da Cabaça - Portalegre

Em tempos não muito distantes no olival da herdade da Cabaça era dado o azeite para a capela de Nossa Senhora do Socorro, para iluminar a santinha todo o ano.

E quando mudou o dono, deixaram de dar o azeite para a capela. No ano seguinte as oliveira, em vez de darem azeitona, deram bagas vermelhas e as folhas ficaram com o feitio das folhas das beldroegas.

Assim continuaram por alguns anos a dar bagas vermelhas.

Então os donos voltaram a dar o azeite para a capela de Nossa Senhora do Socorro. No entanto as oliveiras nunca mais voltaram a dar azeitona como davam dantes. E passados tantos anos ainda em algumas oliveiras aparecem folhas e bagas esquisitas.

Versão de Portalegre, registada em 2001 por Rita de Jesus Cordas Barroqueiro (n. Reguengo, 1934) e transcrita por Ruy Ventura (2005) – Contos e Lendas da Serra de São Mamede, antologia breve, Almada, Associação de Solidariedade Social dos Professores: 87.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Gastronomia Tradicional Alentejana - Empadas de Galinha

Ingredientes
Para o recheio:
1 galinha
250 g de toucinho
1 chouriço de carne médio (linguiça)
1 colher de sopa de banha
2 colheres de sopa de azeite
1 cebola
2 dentes de alho
1 ramo de salsa
1 ramo de manjerona
3 cravinhos
10 grãos de pimenta preta
1 dl de vinagre
1 dl de vinho branco
4 dl de água
sal

Para a massa:
500 g de farinha
2 ovos (para pincelar)

Preparação
Metem-se numa panela todos os ingredientes citados para o recheio e leva-se ao lume até que a galinha esteja bem cozida e se separe dos ossos. A quantidade de líquido – vinagre, vinho branco e água – depende do tamanho da galinha e do recipiente em que for cozida. A galinha deverá ficar bem coberta pela mistura referida e, sendo necessário aumentar as quantidades indicadas, as proporções deverão ser respeitadas, isto é: para 4 partes de água, 1 de vinagre e 1 de vinho branco.
Estando a galinha e as restantes carnes bem cozidas, escorrem-se e cortam-se em bocadinhos. Côa-se o caldo e deixa-se arrefecer.
Peneira-se a farinha para uma tigela grande e trabalha-se à mão com a gordura sobrenadante e um pouco de caldo. Amassa-se até se obter uma pasta macia e de boa consistência para se tender.
Estende-se a massa a massa à mão em bocados com que se forram as características formas de empadas. Dentro de cada forma deitam-se bocadinhos de farinha, um bocadinho de toucinho e um ou dois pedaços de chouriço. Rega-se com uma colher de sopa do caldo de cozer as carnes e tapa-se com uma rodela da mesma massa. Faz-se a massa aderir nos bordos dando-lhe uma espécie de beliscões. Pincelam-se com ovo batido e levam-se a cozer em forno moderadamente quente.
Antigamente estas empadas eram moldadas e cozidas em formas feitas em casa com papel manteigueiro. Hoje, para as cozer, usam-se as características formas em folha para empadas.

Receita retirada de Receitas e Menus

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Personalidades Alentejanas - RIVARA, Joaquim Heliodoro da Cunha

(n. Arraiolos em 1800; m. Évora em 1879)

Formou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra, mas nunca mostrou grande predilecção pelo exercício da mesma. Passou então a ocupar cargos administrativos no Governo Civil de Évora, e depois de ter leccionado aulas de filosofia no liceu foi nomeado bibliotecário da Biblioteca Pública da cidade.

Durante 15 anos desempenhou um trabalho assinalável nesta Biblioteca, mais concretamente na sua reorganização. Conseguiu construir uma nova sala, com a capacidade para 8000 livros, reparou totalmente o edifício, separou e fez intregrar nela mais de 10 000 volumes de livrarias de conventos extintos, além de doar vários livros da sua própria biblioteca particular. Por falta de empregados, todos os volumes foram catalogados por si.

Todo este trabalho não fez com que Cunha Rivara se desviasse das suas obrigações de magistrado, participando também em diversas publicações e chegou mesmo a ser eleito deputado por Évora. Foi nomeado Secretário-geral do Governador-geral da Índia, cargo que o fez visitar todo o Padroado do Oriente. Conseguiu ganhar a confiança dos políticos da altura devido ao seu excelente trabalho no aperfeiçoamento dos serviços administrativos, da instrução pública e da educação popular, bem como para o progresso económico e industrial.

Nas suas visitas ao Oriente, elaborou um extenso trabalho de investigação de todas as ruínas e monumentos que comprovassem a presença dos portugueses. Publicou também diversos artigos do arquivo do Governo-geral, e defendeu intensamente os direitos da Nação, tanto em negociações, como em controvérsias na imprensa.

Voltou novamente a Évora, onde se iria dedicar quase por inteiro à publicação de numerosos artigos. Publicou na sua maioria textos locais dos mais variados assuntos (entre os quais alguns textos sobre saúde pública, a sua formação) e, como fruto da sua presença na Índia, publicou numerosos documentos acerca da acção portuguesa na Ásia.

In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa; Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., [195-]. Vol. XXV, pp. 791-793.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Lenda da fundação de Portalegre

[U]m Vesperaldo, nobre cavaleiro e fidalgo, que era de nação inglês, ou de Bretanha, veio a estas partes da Lusitânia e, chegando a este sítio, se apousentou em o alto de um outeiro, por cima do mosteiro de Sam Francisco, onde agora está S. Cristóvão, e neste lugar edificou ũa fortaleza que não devia ser muito pequena, conforme o mostram suas ruínas, porque ainda parecem pedaços de muros e isquinas de torres.

Ali dizem que edificou aquela ermida e nela fez muita penitência, e dizia que este foi o primeiro edifício que houve nesta cidade.

Versão de proveniência desconhecida, recolhida em finais do século XVI ou princípios do século XVII por Diogo Pereira Sotto Maior (1984) – Tratado da Cidade de Portalegre, (introdução, leitura e notas de Leonel Cardoso Martins), Lisboa, INCM / Câmara Municipal de Portalegre: 45.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Gastronomia Tradicional Alentejana - Carneiro Assado

Ingredientes
Para 8 a 10 pessoas
2 pernas de carneiro
6 dentes de alho
1 ramo grande de salsa
4 cebolas
150 g de banha
2 folhas de louro
pimenta
4 cravinhos
1 colher de sopa de massa de pimentão
1 colher de sopa de colorau
1,5 dl de vinho branco ;
sal
carneiro-assado

Preparação
Pisam-se num almofariz, até fazer papa, os dentes de alho, um ramo de salsa e sal. Barram-se as pernas do carneiro com esta papa e colocam-se numa assadeira de barro. Espalham-se por cima as cebolas ás rodelas, a banha aos bocadinhos, as folhas de louro cortadas ao meio, pimenta em pó, os cravinhos, o pimentão e o colorau. Junta-se ainda um ramo de salsa inteiro e rega-se tudo com o vinho branco e uns pinguinhos de água.
Leva-se a assar no forno.
Acompanha-se com batatas fritas ou assadas no próprio e salada de alface.
Este assado é prato obrigatório em todas as festas importantes, em casamentos e baptizados.

Receita retirada de Receitas e Menus

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Personalidades Alentejanas - RIBEIRO, José Silvestre

(n. Idanha-a-Nova em 1807; m. Lisboa em 1891)

Filho de António Nunes Ribeiro e de Josefa Pereira da Silva. Fez os estudos preparatórios na sua vila natal, tendo-se matriculado no 1.º ano do curso de Filosofia da Universidade de Coimbra a 14 de Outubro de 1823 e, no ano seguinte, matriculou-se no 1.º ano jurídico na mesma Universidade.

As suas convicções liberais levaram a que se destacasse no contexto académico, ficando como memorável o debate que sustentou com João Baptista Teixeira de Sousa, então estudante de Direito, numa aula do lente Faustino Simões Ferreira, em defesa do regime liberal. Num percurso típico da sua geração, José Silvestre Ribeiro incorporou-se no Batalhão Académico que se formou em defesa do liberalismo, sendo obrigado, pelas vicissitudes que se seguiram à Vilafrancada a abandonar a Universidade de Coimbra e a procurar o exílio. Falhada a Belfastada, integrou o exército dos vencidos e refugiou-se na Galiza, de onde partiu para Paris.

Em Paris procurou retomar a sua formação académica, assistindo a aulas na Universidade e estudando com François Guizot. Esta passagem por Paris, apesar de curta, teria repercussões no pensamento de Silvestre Ribeiro. Aqui ganhou uma visão europeísta de Portugal, que o levou a ser crítico em relação a muitas das opções africanistas e pró-coloniais da intelectualidade e dos políticos portugueses seus contemporâneos.

De Paris partiu para Plymouth, onde se incorpora nas forças do partido liberal que partiram para Belle-Île e daí para a ilha Terceira. Durante a sua estadia em Belle-Île destaca-se como um dos organizadores da expedição, integrando-se no Batalhão dos Voluntários Académicos comandado por João Pedro Soares Luna. Na Terceira, face às dissidências que já afligiam o campo liberal, ficou com o seu batalhão acantonado na vila da Praia, participando activamente nas escaramuças que se travaram contra as guerrilhas absolutistas que ainda subsistiam na ilha. Após a chegada aos Açores de D. Pedro IV, partiu para Ponta Delgada, onde foi incorporado na expedição naval, comandada pelo almirante George Rose Sartorius, dos famosos 7500 bravos que daquela cidade partiram a 8 de Julho de 1832 e que protagonizaram o desembarque do Mindelo. Na fase final das lutas liberais, integrou a expedição comandada por António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, depois 1.º duque da Terceira, que partiu do Porto e desembarcou em Cacela, no Algarve. Acompanhou essas tropas no seu percurso até Lisboa, estando entre as primeiras forças liberais que entraram na capital portuguesa a 24 de Julho de 1833.

Assinada a Convenção de Évora-Monte que pôs termo à guerra civil, retomou os estudos, sendo despachado bacharel em Cânones a 13 de Outubro de 1834, beneficiando das dispensas que se concederam aos ex-combatentes liberais. Estando entre os vencedores da guerra e beneficiando das fortes ligações políticas que tinha cimentado no Batalhão Académico, logo a 7 de Junho de 1834 foi nomeado prefeito da Província da Beira Baixa, a qual integrava o seu concelho natal. Permaneceu neste cargo até à extinção das prefeituras, passando então a exercer o cargo de secretário-geral do Governo Civil de Castelo Branco, onde se manteve até 1837.

Sobre a sua acção na prefeitura publicou em Lisboa, ainda em 1834, um opúsculo intitulado Defesa do prefeito da Beira Baixa. Naquele ano foi nomeado administrador-geral interino do Distrito de Portalegre (cargo que anos depois seria redenominado governador civil). Exerceu essas funções até 1839, ano em que resolveu aceitar a nomeação para administrador-geral do Distrito de Angra do Heroísmo, regressando assim à ilha Terceira.

Exerceu as funções de governador civil do Distrito de Beja de 13 de Novembro de 1844 a 27 de Maio de 1846, data em que foi nomeado governador civil de Faro. Durante o seu mandato em Beja teve importante acção na área da beneficência, elaborando um interessante estudo sobre a situação do distrito, incluindo o levantamento das suas primeiras estatísticas, que publicaria já quando governador civil do Funchal. Não chegou a exercer funções em Faro, já que foi exonerado apenas um mês depois de ser nomeado, a 27 de Junho de 1846, passando nessa altura a secretariar António José de Ávila, o futuro 1.º duque de Ávila e Bolama.

José Silvestre Ribeiro chegou ao Funchal a 12 de Setembro de 1846 com as funções de ajudante e secretário de António José de Ávila, então nomeado delegado régio para na ilha da Madeira sindicar as graves desordens que se haviam gerado em resultado do abandono do catolicismo por um numeroso grupo de madeirenses liderados pelo médico escocês e missionário calvinista Robert Reid Kalley. Nessas circunstâncias, a 5 de Setembro de 1846, foi nomeado governador civil do Distrito do Funchal, cargo do qual tomou posse a 7 de Julho de 1846 e no qual teve de imediato de enfrentar os problemas resultantes da intolerância religiosa que levou largas centenas de madeirenses a abandonar a ilha para se irem instalar nas Caraíbas e no estado norte-americano de Illinois, em especial na cidade de Jacksonville.

Na Madeira dedicou grande atenção às questões sociais e de fomento económico, tendo fundado algumas instituições de beneficência e de socorro social. Também a instrução pública lhe mereceu particular cuidado, pois fundou escolas e promoveu a inspecção das existentes, já que a sua eficácia parecia nula. As questões da acessibilidade interna, muito dificultadas pelo relevo escarpado da ilha, também foram por ele consideradas. Teve em especial atenção a construção de pontes e de locais onde fosse possível o descanso dos viajantes obrigados a trepar as grandes ladeiras existentes na ilha. Um desses abrigos é actualmente considerado monumento: a Casa de Abrigo do Poiso. Também a ponte do Ribeiro Seco e a Estrada Monumental, iniciativas do prefeito Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque, foram por ele concluídas. A nível do fomento económico, deveu-se a José Silvestre Ribeiro a primeira acção de promoção do bordado da Madeira.

A primeira eleição de José Silvestre Ribeiro como deputado às Cortes ocorreu nas eleições gerais realizadas em Agosto de 1845, sendo eleito pelo círculo de Angra do Heroísmo. Prestou juramento a 26 de Janeiro de 1846, integrando a Comissão de Verificação de Poderes. Naquela legislatura, a sexta da Monarquia Constitucional portuguesa, ocorreu apenas uma sessão legislativa (de Janeiro a Maio), já que os acontecimentos da Revolução da Maria da Fonte, a Emboscada e o desencadear da guerra civil da Patuleia, cedo levaram à suspensão da vida parlamentar. Daí que tenha sido fácil a José Silvestre Ribeiro manter as suas funções no governo civil da Madeira.

Terminada a guerra civil com a assinatura da Convenção de Gramido, volta a ser candidato nas primeiras eleições posteriores à pacificação do país, realizadas em Novembro de 1847. Desta vez foi eleito pelo círculo do Funchal, prestando juramento a 4 de Janeiro de 1849. Veio a destacar-se a sua participação na Comissão Especial encarregada de examinar o projecto de lei do Código Florestal e da reforma da Administração Pública. Na sétima legislatura da Monarquia Constitucional, com sessões de 1 de Janeiro de 1848 a 25 de Maio de 1851, foi um parlamentar activo e assíduo, mantendo o seu estilo de intervenção pertinaz e frequente em matérias de interesse local do seu círculo eleitoral.

Voltou a ser eleito pela Madeira nas eleições gerais de 12 de Dezembro de 1852, prestando juramento a 27 de Abril de 1853. A 2 de Outubro de 1856 o rei fê-lo membro extraordinário do Conselho de Estado. Ao todo proferiu mais de 200 intervenções nesta legislatura, sendo considerado essencialmente pró-governamental, embora tenha recusado uma nomeação para a Comissão Diplomática argumentando ser da oposição.

Estando o Partido Histórico no poder, foi chamado a integrar o ministério presidido por Nuno José Severo de Mendonça Rolim de Moura Barreto, o 1.º duque de Loulé, assumindo o Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça a 7 de Dezembro de 1857. Contudo, a sua experiência governamental pouco durou, pois foi exonerado, a seu pedido, a 31 de Março de 1858. Mesmo assim, em consequência da iniciativa de José Silvestre Ribeiro de constituir uma comissão encarregada das reformas do Código Penal e do Processo Penal, foi constituída uma comissão e foram publicados múltiplos artigos com as opiniões de diversos peritos e corporações sobre as propostas de reforma que iam sendo apresentadas.

Nas eleições gerais de 2 de Maio de 1858 foi eleito pelo círculo de Angra do Heroísmo, constituindo esta a sua última eleição parlamentar. Prestou juramento a 22 de Novembro de 1858. Por esta altura manifestava-se abertamente contra a menorização do espírito de localidade, afirmando que o facto de ser deputado da Nação não deveria impedir a atenção aos interesses de círculo, mesmo que pudesse ser considerado um interesse de campanário. Interessou-se sobremaneira pelas questões da educação e pela defesa da liberdade e transparência eleitorais e pelo fim do arbítrio nas operações de recrutamento militar. Foi um dos subscritores da proposta de lei que visava a libertação de todos os escravos que entrassem nos portos de Portugal e das Ilhas Adjacentes.

Fez parte da comissão encarregue de apresentar as bases para a reforma do Código Administrativo, que funcionou de 1862 a 1864, e de múltiplas outras instituições e comissões públicas. Foi elevado ao pariato por carta régia de 29 de Dezembro de 1881, tomando assento na Câmara dos Pares a 30 de Janeiro de 1881. Por esta altura já a sua capacidade e interesse na participação parlamentar estavam reduzidos, tendo sido escassa a sua intervenção nos debates.

Manteve ao longo de toda a sua vida uma intensa actividade cívica, intervindo na fundação de múltiplas associações. Foi, entre outras instituições, fundador da Sociedade Protectora dos Animais, e seu primeiro presidente da assembleia geral, e do Montepio Geral, a cuja assembleia geral também presidiu. Foi membro da Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, cuja revista editou, e sócio honorário da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense.

Interessou-se pelos estudos literários, sendo um estudioso de Luís de Camões, Dante Alighieri, Luisa Sigea de Velasco e Calderón de la Barca, entre outros clássicos. Neste contexto dedicou-se a assuntos de linguística e de história da literatura, com especial foco na literatura portuguesa, assunto que foi objecto de uma notável obra sua, e na diferenciação entre a língua portuguesa falada em Portugal e no Brasil. No âmbito da história da cultura, publicou a obra História dos estabelecimentos científicos, literários e artísticos de Portugal nos sucessivos reinados da monarquia, em 18 volumes. A este veio-se juntar um 19.º volume, constituído pelos Apontamentos históricos sobre bibliotecas portuguesas, deixado inédito pelo autor e apenas publicado em 1914, organizado e antiloquiado por Álvaro Neves.

Este labor intelectual valeu-lhe a eleição para membro da Academia Real das Ciências de Lisboa. Foi colaborador assíduo de diversos jornais e revistas, entre os quais a Chronica Constitucional do Porto, O Panorama, Jornal do Comercio, A Revolução de Setembro, O Archivo Pittoresco, Encyclopedia Popular, Diario de Notícias, O Conimbricense e muitos outros.

 Wikipédia, a enciclopédia livre. José Silvestre Ribeiro. [Online] URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Silvestre_Ribeiro. Acedido a 5 de Novembro de 2007.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Lenda da igreja de São Sebastião - Carreiras

Segundo a lenda, junto à porta principal d[a] igreja de São Sebastião das Carreiras, estão enterrados, lado a lado, dois potes: um cheio de ouro, outro cheio de veneno. Segundo o povo, quem, ao tentar desenterrá-los, encontrar primeiro o que contém o dinheiro em ouro, ficará rico, caso contrário morrerá imediatamente.

Versão de Carreiras (Portalegre), recolhida e publicada por Ruy Ventura (1993) – “Notas Histórico-Etnográficas sobre a Freguesia das Carreiras – A igreja paroquial”, in O Distrito de Portalegre, de 1 a 22 de Janeiro.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Gastronomia Tradicional Alentejana - Túberas de Fricassé

Ingredientes
Para 4 pessoas
1 kg de túberas
1 cebola
2 colheres de sopa de azeite
1 colher de sopa de banha
1 folha de louro
4 gemas
1 limão
1 ramo de salsa
sal

Confecção
Põem-se túberas de molho e esfregam-se com uma escovinha.
Lavam-se muito bem, descascam-se e cortam-se em rodelas grossas.
Faz-se um refogado com a cebola picada, o azeite, a banha e o louro.
Juntam-se as túberas, temperam-se com sal e deixam-se apurar.
Isto leva um certo tempo, pois as túberas largam muita água.
à parte misturam-se as gemas com o sumo de limão e salsa picada.
Retiram-se as túberas do lume, adicionam-se as gemas com o limão e leva-se novamente a lume brando, deixando cozer cuidadosamente para evitar que os ovos talhem.

Receita retirada de Receitas e Menus

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Personalidades Alentejanas - RIBEIRO, Bernardim

(n. Torrão em 1482?; m. 1552?)

Escritor português. Algumas referências na sua obra, que se supõe serem autobiográficas, levam a pensar que seria natural do Torrão (Alcácer do Sal) e certas conjecturas feitas a propósito da segunda edição de Menina e Moça apontam para que tenha morrido antes de 1557.

Frequentou a corte, onde foi poeta conhecido, e colaborou no Cancioneiro Geral (1516) de Garcia de Resende. Sá de Miranda fez-lhe várias referências nas suas obras como grande amigo e companheiro de letras e afirmou que, com as suas éclogas, Bernardim Ribeiro foi o introdutor do bucolismo em Portugal.

A sua obra mais célebre é a Menina e Moça, da qual há três versões. A primeira foi editada em 1554, em Ferrara, pelo exilado judeu português Abraão Usque. Este facto apoia a tese de alguns ensaístas, nomeadamente Hélder de Macedo (Do Significado Oculto da Menina e Moça), acerca do judaísmo de Bernardim Ribeiro. Isto daria à obra, de estrutura aparentemente inconclusa, um significado cifrado que constituiria a representação esotérica da comunidade judaica no exílio. Tal tese surge apoiada ainda em outros factos da vida do autor, como o seu afastamento forçado da corte, talvez mesmo de Portugal, já que a publicação das suas obras teve lugar em cidades estrangeiras, onde havia comunidades de judeus emigrados. Posteriormente segui-se a edição eborense de 1557, por André de Burgos, e a terceira, de 1559, impressa por Arnold Birckman em Colónia.

Menina e Moça é uma novela sentimental, com influência de Boccaccio, de temática amorosa e cavaleiresca com fundo bucólico e autobiográfico (como o sugerem os inúmeros anagramas, quer do nome do autor, Binmarder, quer de pessoas das suas relações, como Aónia ou Avalor). Nela se encontra presente uma subtil análise psicológica em voz feminina, eco da tradição galego-portuguesa das cantigas de amigo e precursora do romance psicológico moderno. O amor trágico alia-se a um sentimento geral de fatalismo e solidão, numa linguagem que se aproxima sugestivamente do coloquialismo, de extrema riqueza rítmica e lírica. Esta novela, cuja designação desde cedo se popularizou como Saudades, veio influenciar claramente a literatura portuguesa, constituindo um fundo sentimental recuperado e reelaborado posteriormente por vários escritores e, nomeadamente, pelos movimentos romântico e saudosista.

Além da novela Menina e Moça, Bernardim Ribeiro escreveu doze poesias menores incluídas no Cancioneiro Geral e três composições em verso (o vilancete Pera tudo houve remédio, a cantiga Pensando-vos estou, filha e o romance de Avalor), cinco éclogas, a sextina Ontem pôs-se o sol e a noute, o romance Ao longo de ua ribeira e duas cantigas e outras composições que foram incluídas na edição de Ferrara daquela novela, em 1554, a cargo de Abraão Usque. O romance Ao longo de ua ribeira, única composição portuguesa inserida no Cancioneiro Castelhano de 1550 (segundo Carolina Michaelis), só apareceu publicado com as obras completas do poeta na edição de 1645.

Enciclopédia Universal Multimédia On-Line. História da Literatura Portuguesa - Ribeiro, Bernardim. [Online] URL: http://www.universal.pt/scripts/hlp/hlp.exe/artigo?cod=2_99. Acedido a 18 de Novembro de 2007.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Lenda da Fonte dos Cães - Castelo de Vide

Contava-se que uma noite vindo um rapaz de namorar, resolveu dessedentar-se. 
Quanto o fazia apareceu-lhe um homem que lhe disse:
“Então estás a beber as sobras da minha cozinha?”
Como o moço se mostrasse espantado logo o levou junto de uma placa de pedra por cuja argola puxou.
Apareceu uma escada de mármore por onde desceram e que dava acesso a um maravilhoso palácio.
Após a visita o estranho homem disse:
“Se quiseres ganhar todas estas riquezas só terás de vir amanhã à meia-noite. Há-de aparecer um touro e tu hás-de-lhe aparar três sortes.”
Ao outro dia o rapaz na mira de enriquecer de um momento para o outro ter-se-ia deslocado à fonte à hora combinada, onde viu o touro que investiu nele.
Aguentou a primeira e a segunda investidas, mas cheio de medo desistiu à terceira.
Então ouviu uma voz dizer:
“Ah! Ladrão! Que me dobraste o encanto!...”

Versão de Castelo de Vide, recolhida e publicada por Maria Guadalupe Transmontano Alexandre (1976) – Etnografia, Linguagem e Folclore de Castelo de Vide, Viseu, Junta Distrital de Portalegre.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Gastronomia Tradicional Alentejana - Favas Guisadas

Ingredientes
Para 4 a 6 pessoas
3 kg de favas
150 g de toucinho
200 g de chouriço de carne
1 molhinho de coentros
2 folhas de alho
200 g de pão
sal

Preparação
Escolhem-se as favas bem tenras e lavam-se depois de descascadas.
Corta-se o toucinho ás tirinhas e o chouriço ás rodelas e fritam-se num tacho em lume brando. Retiram-se quando tiverem largado bastante gordura.
A esta gordura junta-se o molhinho de coentros ao qual se ataram as duas folhas de alho. Deixa-se fritar um pouco e juntam-se-lhe então as favas. Tapam-se e deixam-se cozer, agitando o tacho e juntando pinguinhos de água à medida que vai sendo necessário para impedir que as favas agarrem ao fundo do tacho e se queimem.
A meio da cozedura das favas, introduz-se novamente o toucinho e o chouriço e deixa-se apurar bem.
Coloca-se numa travessa ou num prato fundo (prato de meia cozinha) o pão cortado ás fatias sobre as quais se deitam as favas.
Acompanha-se com salada de alface cegada, isto é, cortada em caldo-verde e temperada com coentros e hortelã picados, azeite, vinagre, sal e um pouco de água.

Receita retirada de Receitas e Menus

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Personalidades Alentejanas - RIBEIRO, Aquilino

(n. Carregal de Tabosa - Sernancelhe - em 1885; m. Lisboa em 1963)

Foi um dos romancistas portugueses mais fecundos da primeira metade do século XX. Frequentou o colégio jesuíta da Lapa e os seminários de Lamego, Viseu e Beja. Em 1906 abandonou o seminário e fixou-se em Lisboa, dedicando-se à defesa da república através de textos conspiratórios. Devido a uma explosão no seu quarto, onde morrem dois carbonários, foge para Paris e só regressa em 1914. Dedicou-se então ao ensino e juntou-se ao grupo da Seara Nova. Entre 1927 e 1928, sofreu algumas perseguições e chegou mesmo a ser preso, conseguindo fugir novamente para Paris. Em 1959, foi-lhe movido um processo censório pelo seu romance Quando os Lobos Uivam.

A sua obra romanesca insere-se numa linha camiliana e destacam-se os seguintes volumes: Andam Faunos pelos Bosques (1926); A Casa Grande de Romarigães (1957); O Malhadinhas e Quando os Lobos Uivam (1958). Estas representam tendências constantes na sua ficção: um regionalismo apegado à terra campesina e às suas gentes, sem perder universalidade nos seus carácteres e descrições; uma ironia terna e complacente perante os vícios humanos comuns; uma crítica violenta da opressão política e do fanatismo ideológico; uma atenção inebriada ao pulsar do torrão campestre, tanto como à vibração sensual do corpo no ser humano.

Centro Virtual Camões. Literatura Portuguesa - Aquilino Ribeiro (1885-1963). [Online] URL: http://www.instituto-camoes.pt/cvc/literatura/AQUILINO.HTM. Acedido a 18 de Outubro de 2007.

Projecto Vercial. Aquilino Ribeiro. [Online] URL: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/aquilino.htm. Acedido a 18 de Outubro de 2007.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Lenda da Fonte do Martinho - Castelo de Vide

Havia uns reis que tinham uma filha que andava a namorar.
Como o pretendente à mão da princesa não era do agrado dos pais, eles resolveram encantá-la no lago do Martinho, o que fizeram de noite.
Simplesmente não viram que a um canto da fonte estava uma mulher agachada.
Como não havia relógios, ela levantou-se para ir lavar, julgando que era mais tarde.
Entre a meia-noite e a uma hora chegaram ao lago três pessoas: pai, mãe e filha.
Depois de ser confiada à princesa uma grande riqueza (deram-lhe dinheiro), foi encantada com a recomendação de oferecer o tesouro a quem a desencantasse.
Ao outro dia, logo a mulher que assistira à cena foi à fonte e bradou pela menina.
Esta acudiu, foi desencantada e disse-lhe:
“A tua riqueza podia ser a dobrar se tivesses esperado mais três ou quatro anos.”

Versão de Castelo de Vide, contada por Maria Francisca, recolhida e publicada por Maria Guadalupe Transmontano Alexandre (1976) – Etnografia, Linguagem e Folclore de Castelo de Vide, Viseu, Junta Distrital de Portalegre: 61 – 62.


domingo, 15 de dezembro de 2013

Gastronomia Tradicional Alentejana - Gaspacho do Baixo Alentejo

Ingredientes
2 ou 3 batatas cozidas e frias
2 dentes de alho
4 ou 5 tomates bem maduros sem pele
1 pepino médio
pão Alentejano (de preferência do dia anterior)
sal, vinagre, azeite q.b.
àgua fresca

Preparação
Pica-se o alho bem miudinho e pisa-se no almofariz juntamente com o sal, transferindo-se depois a pasta para a tijela (grande ) onde se vai fazer o gaspacho.
Picam-se as batatas cozidas e desfazem-se de igual modo.
Pelam-se os tomates e com as mãos desfaz-se parte deles, sendo o restante picados em bocados miudinhos.
Pela-se o pepino e pica-se em quadradinho muito, muito pequeninos.
Junta-se água bem fresca, a gosto (dependendo se gosta do caldo mais ou menos espesso).
Rectifica-se o sal e tempera-se de azeite e vinagre a gosto.
Corta-se o pão em cubinhos e junta-se ao preparado.
Experimente acompanhar o gaspacho com sardinhas assadas, peixe frito, ou ainda uns bocados de chouriço ou presunto Alentejano.

Receita retirada de Receitas e Menus

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Personalidades Alentejanas - RESENDE, Garcia de

(n. Évora em 1470; m. Évora em 1536)

Escritor, desenhador e músico português. De origem nobre, pertencia à mesma família que André de Resende e André Falcão de Resende.

Manteve-se ligado à corte, tendo sido, desde 1490, moço de câmara e secretário particular de D. João II. Homem próximo do rei D. Manuel, foi encarregado por este de várias missões, incluindo a de secretário da embaixada enviada a Leão X, sob a chefia de Tristão da Cunha. Quando voltou, D. Manuel nomeou-o fidalgo da sua casa e escrivão do príncipe D. João, futuro Rei.

Por força da sua doença, viu-se impossibilitado de atender às cortes, e como D. João III o achava indispensável, Garcia de Resende convenceu-o a realizar a cortes em Évora.

Garcia de Resende foi um hábil desenhador e arquitecto. Durante muito tempo pensou-se que teria desenhado uma custódia, que hoje se atribui a Gil Vicente, e elaborou o plano da sua capela tumular no mosteiro do Espinheiro. Desenhou também o plano de uma fortaleza que D. João II pensou construir em frente à torre da Caparica, mas que posteriormente veio a ser a Torre de Belém. Foi também responsável por delinear as festas do casamento do príncipe D. Afonso.

Compilou o célebre Cancioneiro Geral de 1516, também conhecido como Cancioneiro de Garcia de Resende. A obra reúne mais de mil composições em português e castelhano de cerca de 286 poetas palacianos da época. Nesta obra também se encontram reunidas uma série de produções suas, principiadas com a famosa questão «Cuidar e Suspirar», debatida na corte de D. João II em 1483, por causa de D. Leonor da Silva, dama muito requisitada. A maioria das composições poéticas são amorosas e satíricas, correspondendo na sua estrutura formal à redondilha-maior, habitualmente utilizada época. Os poetas contidos no Cancioneiro pertencem ao período desde o começo da segunda metade do séc. XIV até quase ao fim do primeiro quartel do séc. XVI.

Garcia de Resende escreveu outras composições poéticas como as Trovas à Morte de D. Inês de Castro, tema da poesia lírica por ele inaugurado. Grande admirador de D. João II (que acompanhou até à sua morte), escreveu Vida e Feitos de D. João II (1533), para o qual aproveitou grandemente a crónica de Rui de Pina, e que vale, sobretudo, pela vivacidade do retrato do monarca.

Foi ainda autor de uma Miscelânea e Variedade de Histórias (1554), esboço histórico da vida nacional e internacional do seu tempo, escrito em verso. No conjunto, a sua obra escrita é de extrema importância para o conhecimento da época, já que nos descreve com elevado detalhe os usos, costumes, trajos, cerimónias, convívio e relações sociais. A sua última obra foi o Sermão dos Três Reis Magos, que compôs já no último ano da sua vida, para se confortar do desgosto que os frades do Espinheiro lhe causaram nas frustradas negociações para a missa quotidiana na capela que fizera erigir.

Escreveu cedo o seu testamento, deixando expressa a sua vontade de ser erigida uma capela em honra de N.ª S.ª do Egipto, perto do mosteiro do Espinheiro, para lá ser sepultado.Com a extinção das ordens religiosas, a capela foi violada, sendo a sua pedra tumular vendida. Durante muitos anos esta pedra serviu de tampo de mesa numa casa particular, até ser recuperada e devolvida ao mosteiro do Espinheiro em 1903.

In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa; Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., [195-]. Vol. XXV, pp. 236-238.

Enciclopédia Universal Multimédia on-line.História da Literatura Portuguesa - Resende, Garcia de. [Online] URL: http://www.universal.pt/scripts/hlp/hlp.exe/geral?tipo=2&p=-1&texto=resende%2C+garcia. Acedido a 5 de Novembro de 2007.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Lenda da Fonte do Capitão - Ribeira de Nisa

Nas hortas ao pé da Fonte do Capitão anda de há muito uma moura encantada. Em dias certos aparece ao povo com um tabuleirinho de passas, mas nunca ninguém as quis comer. Só no dia em que isso acontecer é que ela será desencantada.

Versão de Ribeira de Nisa (Portalegre) contada por Aníbal Candeias Tavares (n. 1973) cerca de 1986. Recolhida e publicada por Ruy Ventura (1996) – “Algumas Lendas da Serra de São Mamede”, separata de Ibn Maruán – Revista Cultural do Concelho de Marvão, nº 6, Dezembro: 33.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Gastronomia Tradicional Alentejana - Gaspacho Alentejano

Ingredientes
200 g de pão alentejano duro
3 tomates maduros de tamanho médio
1 pimento verde pequeno
1/2 pepino
4 dentes de alho
4 colheres (sopa) de azeite
4 colheres (sopa) de vinagre
orégãos secos
1,5 l de água gelada
1 colher (sopa) de sal grosso

Preparação
Pisam-se os dentes de alho com sal, num almofariz.
Escalda-se e pela-se um tomate, retiram-se-lhe as grainhas e reduz-se a puré.
Misturam-se estes ingredientes, formando uma papa, e deitam-se no fundo de uma terrina.
Rega-se com parte do azeite, o vinagre, e polvilha-se com os orégãos secos, que devem ser esfarelados entre as mãos.
Corta-se o restante tomate e pepino em pequenos cubos, e o pimento em tiras finas.
Introduz-se tudo na terrina e juntam-se o restante azeite e a água gelada.
Por fim, corta-se o pão em fatias e depois, à mão, em pequenos pedaços, introduz-se no caldo.
Pode ser servido com presunto, azeitonas e mesmo acompanhando sardinhas assadas.

Receita retirada de Receitas e Menus

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Personalidades Alentejanas - RESENDE, André Falcão de

(n. Évora em 1527; m. Lisboa em 1599)

Era sobrinho de Garcia de Resende e primo de André de Resende. Frequentou as Universidades de Évora e Coimbra onde se formou em Artes e Lei Canónica, respectivamente. Seguiu a carreira de magistratura, foi juiz de fora em Torres Vedras e noutras vilas e cidades, e também auditor da Casa de Aveiro.

Foi amigo de Camões, poeta cujo estilo procurou imitar, de tal modo que durante muito tempo se pensou ser deste autor a obra Microcosmographia e descripção do Mundo Pequeno que é o Homem. Compou-lo em português, castelhano e latim. Publicou em Madrid os poemas Theocristo e Mundo Pequeno. Traduziu em oitavas as Homilias do cardeal D. Henrique. No livro Relação do solene recebimento que se fez em Lisboa às Santas Relíquias que se levaram à Egreja de S.Roque da Companhia de Jesus, do Padre Manuel de Campos foram publicadas muitas das suas poesias.

Em 1860 publicou-se um manuscrito com as Obras do Licenciado André Falcão de Resende, natural de Évora. Esta obra contem a Microcosmografia e 78 sonetos, 7 odes, 5 epístolas, 12 sátiras, 4 epitalâmios, 1 elegia, 7 estâncias, 1 epigrama, 2 sextilhas, 2 vilancetes, 32 versões de odes de Hóracio, a sátira 9ª do livro 1º do mesmo poeta e várias prosas.
 
In Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Lisboa: Editorial Verbo, 1983. Vol. 16, pp. 384-386.

In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa; Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., [195-]. Vol. XXV, p. 233.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Lenda da Escusa (Marvão)

[Diz-se que] S. Tiago […] viera [ao Porto da Espada] com os Cristãos perseguir os Mouros, e ao passar pela Escusa de hoje, tivera dito:
- “Ali se escusa de ir.”

Versão de Porto da Espada (Aramenha, Marvão), recolhida e publicada por Maria Tavares Transmontano (1979) – Subsídios para a Monografia do Porto da Espada […] (Concelho de Marvão), Viseu, Junta Distrital de Portalegre: 16.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Gastronomia Tradicional Alentejana - Perninhas de Rã

Ingredientes
Perninhas de rã
tomate
cebola
alho
sal
pimentão verde
pimenta

Preparação
Faz-se um molho com tomate, cebola e alho e deixa-se refogar. Depois passa-se o molho pelo passador, devendo ficar grosso. As perninhas de rã devem estar já bem lavadas e temperadas com sal, após o que se colocam no molho e vão cozendo em lume brando, com umas tiras de pimentão verde e pimenta.

Receita retirada de Receitas e Menus

sábado, 23 de novembro de 2013

Personalidades Alentejanas - RESENDE, André de

(n. Évora ca. 1500, m. Évora em 1573)

Humanista português. Ingressou com dez anos no convento da ordem de São Domingos. Frequentou depois várias universidades espanholas, como as de Alcalá de Herares e Salamanca. Doutorando-se nesta última.

Em 1533 foi convidado para mestre do infante D. Duarte. Transferiu-se por essa altura da ordem dominicana para a situação de clérigo secular. Regia, simultaneamente, a cadeira de Humanidades na Universidade de Lisboa, passando a leccionar, em 1537, na de Coimbra.

André de Resende foi, provavelmente, o pioneiro da arqueologia em Portugal, à qual se dedicou com zelo, devendo-se-lhe o primeiro estudo dos monumentos epigráficos da época romana em Portugal. Foi sepultado em Évora, no claustro do convento de São Domingos.

Deixou-nos numerosos manuscritos em latim e português (livros, opúsculos, poemas, estudos arqueológicos), sendo as suas obras principais Encomium Urbis et Academiae Lovaniensis (1530); Erasmi Encomium, Carmen Eruditum et Elegans (1531); In Erasmomastigas Iambi (1531); De Vita Aulica (1533); Oratio Pro Rostris (oração de sapiência na abertura da Universidade de Lisboa, em 1534); Vincentius Levita et Martyr (1545); História da Antiguidade da Cidade de Évora (1553); Vida do Infante D. Duarte e as obras póstumas Ad Bartholomaeum Kebedium (1576) e Antiquitatum Lusitaniae (1600).

Revelou-se ainda como compositor musical, sendo da sua autoria o Ofício de São Gonçalo e o Ofício de Santa Isabel.

Enciclopédia Universal Multimédia on-line. História da Literatura Portuguesa - Resende, André de. [Online] URL: http://www.universal.pt/scripts/hlp/hlp.exe/geral?tipo=2&p=-1&texto=resende. Acedido a 18 de Outubro de 2007.

domingo, 17 de novembro de 2013

Lenda da Cova da Moura - (Porto da Espada, Aramenha)

Em tempos que já lá vão, em vésperas da manhã de S. João, chegou à porta duma mulher, que morava perto da Cova da Moura, um homem que lhe pediu pousada.

Como a mulher lha cedesse, depois de cear, pendurou o bornal que trazia numa estaca de madeira na parede interior da chaminé, foi deitar-se, e logo adormeceu.

O mesmo não sucedeu à dona da casa que, cheia de curiosidade, logo que a ocasião lho permitiu, levantou-se e foi abrir o bornal. Como nele estavam três bolos, quis prová-los, cortou um, tendo o cuidado de o pôr sob os outros. À madrugada o cavaleiro levantou-se, pegou no bornal, e dirigiu-se à Cova da Moura onde estavam três irmãs encantadas.

À primeira deu-lhe um bolo que se transformou num cavalo, que partiu a galope levando-a para a Mourama.

À segunda aconteceu o mesmo que à primeira, e à terceira, cheio de surpresa, deu-lhe o bolo partido que se transformou num cavalo coxo que a não pode levar com rapidez antes do sol nascer para junto das irmãs, e por isso ali ficou eternamente encantada, esperando em cada manhã de S. João o cavaleiro que nunca mais apareceu!...

Versão de Porto da Espada (Marvão), recolhida e publicada por Maria Tavares Transmontano (1979) – Subsídios para a Monografia do Porto da Espada […] (Concelho de Marvão), Viseu, Junta Distrital de Portalegre: 25.